Resenha do filme Terra Sonâmbula

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O filme Terra Sonâmbula, baseado no livro de mesmo nome, foi uma adaptação, através da visão da diretora portuguesa Teresa Prata, que, em nossa opinião, desconstruiu o universo criado por Mia Couto em seu livro. Terra Sonâmbula conta a história do menino Muidinga (Nick Lauro Teresa) e o velho Tuahir (Aladino Jasse), dois companheiros de viagem, que durante a guerra civil moçambicana, andam sem rumo, apenas procurando fugir dos bandos. Num machimbombo (ônibus) incendiado em que eles se abrigam, eles encontram nos pertences de uma das pessoas mortas que estão ali, vários cadernos que contam a história de um chamado Kindzu (Hélio Fumo). A partir daí, eles começam a ler esses cadernos e começam a “entrar” na história de Kindzu, que passa a ser narrada paralelamente à deles. O filme é uma coprodução portuguesa e moçambicana, foi filmado em Moçambique com atores deste país e foi lançado no ano de 2007.

O filme, tanto por não apresentar importantes passagens do livro quanto por não apresentar determinadas personagens, é ruim em comparação ao livro. Em primeiro lugar, o longa metragem não traz um monte de fatos essenciais, como o de que o objetivo da fuga de Kindzu era achar os naparamas (guerreiros blindados) e se juntar a eles, informação importante por mostrar a tentativa do personagem de encontrar o seu lugar no mundo, sua utilidade e, consequentemente, sua identidade.  Outro fato importante omitido no filme é o de que Surendrá (indiano amigo de Kindzu) abriu, junto com Romão Pinto e Assane (colono e secretário, respectivamente, da região de Matimati) um negócio de transportes. Isso mostrava que, mesmo após a independência de Moçambique, a lógica colonial ainda influenciava a cultura do país, já que a ideia de tirar proveito econômico de alguém permanecia. As pessoas não se viam como um próprio povo, ou seja, como iguais. A propósito, Assane, assim como outros personagens marcantes, nem chegou a aparecer no filme.

Além disso, o filme desconstrói o universo criado por Mia Couto em seu livro. Nesse Couto apresenta uma mistura da realidade com o sonho, há passagens em que o leitor fica em dúvida se o que está acontecendo é a realidade ou não, o próprio narrador-personagem Kindzu diz que pode não distinguir uma dimensão da outra. No filme, no entanto, toda essa questão do imaginário é desconsiderada, e essa visão subjetiva dos fatos é muito pouco abordada. O filme também não dá tanto destaque a analogia feita por Mia Couto, em que a chamada Terra Sonâmbula mostraria o espírito das pessoas, que andariam com incerteza, movidas apenas pela esperança de que a guerra um dia acabasse. O sonambulismo seria o tempo de guerra, e quando essa acabasse, as pessoas acordariam.

Dessa forma, consideramos o livro mais interessante do que o filme. Esse segundo ignora elementos da narrativa que deveriam ter sido abordados no longa já que são importantes para a construção do universo criado por Couto. Portanto, o filme pode até ser uma boa forma de entretenimento, mas para aqueles que já leram o livro e que se impressionaram com a obra, o filme se torna um pouquinho decepcionante.

– Lí, Isa, Carol e Vick

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