Alegrias engarrafadas: os álcoois e a embriaguez na cidade de São Paulo no final do século XIX e começo do XX

Ao pesquisar sobre os bares em São Paulo e procurar estudos relacionados a esse tema, encontramos uma tese de Doutorado, feita por Daisy de Camargo, que analisa as relações sociais ligadas ao consumo de bebidas alcoólicas em nossa cidade. Pretendemos fazer um documentário sobre os bares em São Paulo e demonstrar a importância social e cultural desses através de relatos pessoais. Dessa forma, a tese de Camargo nos interessou muito, já que queremos explorar o que está por trás do que, para várias pessoas, parece apenas uma bebida. Selecionamos alguns dos trechos do trabalho que nos chamaram a atenção, mas o estudo inteiro pode ser acessado através do link indicado no final do post.

Tese de Doutorado de Daisy de Camargo na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras (Campus de Assis)

Apresentação

“Esse trabalho trata do consumo de bebidas alcoólicas na cidade de São Paulo no final do século XIX e começo do XX e das relações sociais que permeiam esse hábito, desvelando gestos e sensibilidades do cotidiano da cidade, captando costumes, modos de vida e sujeitos extintos. Ou seja, o objetivo foi o de explorar uma cultura gestual, material e sensível, historicamente construída, ligada às bebidas espirituosas, seus objetos, seus lugares de uso, suas maneiras e ritos de saborear. O propósito foi fazer uma história de coisas banais, recompor em cacos os espaços dos botequins, seus mobiliários, as bebidas que eram vendidas, as gentes que os frequentavam, os caminhos e disputas dos alcoóis e outras drogas no controle dos corpos.”bar3

“A pertinência de trazer os bêbados como personagens da cidade é que estes sujeitos apontaram para um caminho de fuga: tavernas e homens que despejam alegrias engarrafadas. Interpelar esses documentos sobre a embriaguez foi um caminho de leitura para revolver a São Paulo do final do século XIX e começo do XX e tentar dialogar com a cidade das tascas, dos botequins, do vinho e da cachaça.”

 Um passeio pelas tabernas e armazéns

“O balcão justifica, em parte, a falta de móveis para sentar. O tom é “encostar a barriga nele”, como até hoje se fala em Portugal. Essa peça desempenha o papel de centro de comunicação e intercâmbio, de encosto, ponto de apoio para quem bebe (e não se aguenta nas pernas), quem serve, para as garrafas e copos, para o preparo das bebidas. Ele, portanto, soma e divide, separa, mas ao mesmo tempo integra as relações e proximidades entre comerciante e borracho. “bar3

“Em seu estudo denominado As Tascas do Porto, Raul Pinto descreve esse universo de ambientes e objetos: amontoados de garrafões, cheios e vazios, muito utilizados no comércio popular a retalhos, como alternativa das pipas com torneiras rangentes, sem muito silêncio ou espaço, barricas, estantes de madeira envidraçadas, o velho balcão, mesas grandes e coletivas (que surgem no inventário tratado no capítulo anterior, de Bernardo Martins Meira), bancos grandes (talvez o correspondente de José Barbosa Braga sejam as marquesas), e, claro, sempre: sardinhas (que como me confessou um filho de uma nobre linhagem de botequineiros, aconselha-se servir bem salgada, para dilatar a sede de líquidos).”

Vida de taberneiro não era nada fácil

“A São Paulo do final do século XIX era ainda uma cidade misturada, que obrigava uma convivência entre negros e brancos, ricos e pobres, damas e mulheres desconsideradas. É claro que essa coexistência incomodava e era repleta de conflitos e repúdios. A reforma efetuada pela prefeitura na Praça da Sé, durante as administrações de Antônio Prado e Raimundo Duprat, tinha como objetivo varrer a geografia do prazer e da embriaguez. ”

bar1

“Nas tabernas, tascas e botequins os princípios e regras de convivência são distintos dos ditados pela burguesia, pelo discurso da Medicina e do Direito. Cria-se aí toda uma gama de disputas e intolerâncias em relação às tabernas e botequins e mesmo ao cheiro e ao gosto da aguardente, assim como a um conjunto de atitudes associadas aos meios populares, como o “beber até cair”. Uma parte da cidade se agastava com os botecos que ficavam abertos à noite, no contrafluxo das cafeterias vespertinas. Nesses ambientes todos tinham direito de sentar à mesa de estranhos e intervir nas conversações. Era uma atmosfera de extroversão e disponibilidade. Um simples gesto como o brinde trazia à tona toda uma carga de inclusão e demonstração de laços entre bebedores.”

“Não é por acaso que no decorrer da segunda metade do século XIX houve uma perseguição e investida de extinção das tabernas na cidade, onde a disciplina imposta pelo institucional passa por um projeto de policiamento dos costumes. A partir dos anos de 1850 a vida ficou cada vez mais difícil para os taberneiros, como José Barbosa Braga, estabelecidos na cidade de São Paulo. Eram frequentemente acusados de desonestos e de envenenarem a cachaça com água. A implicância aumentou quando as novas modas de comércio que surgiram na cidade, consideradas signos de progresso, tais como os cafés, confeitarias e restaurantes, eram colocadas em oposição às tabernas pela grande imprensa.”bar2

“De todo modo, vale destacar que essa atitude de estereotipar os hábitos dos borrachos das camadas populares não é de espreita, isolada. O debate em torno do uso de bebidas alcoólicas que ocorreu no decorrer do século XIX clareia o contato entre o refluxo do mal e da impureza e o projeto civilizador. Mergulhamos num mundo de adoração da racionalidade. O despertar dos sentidos passa a ser atrelado a uma suposta insuficiência de civilização e de falta de domínio das cidades e dos corpos. A estabilidade é apostada na vitória da higiene e da suavidade, da cultura da temperança, dos bons costumes. Houve um refinamento no que diz respeito aos graus de agrado ou impertinência: maus cheiros, miasmas, tudo que soasse fétido, podre e sujo. A conduta do código dos usos seria a da limpeza. É o universo técnico e prepotente apresentando suas soluções ilusórias e efetivas.”

O texto acima são apenas cortes do texto original de Daisy de Camargo. Sua tese na íntegra está no link abaixo:

http://www.athena.biblioteca.unesp.br/exlibris/bd/bas/33004048018P5/2010/camargo_d_dr_assis.pdf

– Carol, Lí, Isa, Vick

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s