Uma história de bar…

Quando estávamos filmando entrevistas para o nosso documentário, passamos por um bar na Haddock Lobo, chamado Espeto de Bambu e destinado ao público gay. Nesse bar, conhecemos e entrevistamos um casal de mulheres, Jéssica e Rose. As duas foram super simpáticas e nos falaram um pouco sobre elas e sua relação com os bares mas, infelizmente, não conseguimos colocar a entrevista com elas no documentário. Elas nos contaram que gostam tanto de frequentar aquele bar pois ele é intimista, faz elas se sentirem a vontade, acolhidas. Para elas, os bares servem como local de lazer, além de serem muitas vezes um refúgio, onde elas têm menos receio de sofrer alguma abordagem preconceituosa. E claro, é um local de começos e términos de namoro. Elas próprias são um exemplo. Rose e Jéssica tinham se conhecido pela internet há uns anos, mas havia uma grande diferença de idade, e Jéssica não tinha 18 anos. Por isso, elas não se relacionaram na época, e foram se reencontrar apenas uns seis, sete anos mais tarde, como vocês podem imaginar, em um bar. Assim, foi num bar que elas, depois de tantos anos, começaram o relacionamento. Essa é apenas uma das muitas histórias de casais juntados por causa dos bares, e agradecemos muito a Rose e Jéssica pela ótima entrevista!

Argumento – Mini Documentário “Histórias de Bar”

Fazer da boemia uma arte, uma tese, um estudo. Não existiria poesia se não existissem purificações alcoólicas da alma -Marília Miños

O vídeo abaixo apresenta nossas propostas e ideias em relação ao nosso projeto final: um mini-documentário:

Além das fontes citadas no vídeo utilizamos também os sites a seguir pra embasar nossa pesquisa:

http://www.foodservicenews.com.br/turismo-influencia-projecao-para-bares-e-restaurantes/

http://www.visitesaopaulo.com/dados-da-cidade.asp

E agora só pra descontrair: aqui está um vídeo dos erros de gravação do dia das filmagens…

História Imediata da Vila Madalena: uma análise das influências em 2012 da história cultural do bairro na década de 1980

Ao pesquisar sobre a importância dos bares na cidade de São Paulo, encontramos uma tese de doutorado escrita por Solange Whitaker Verri. O trabalho é intitulado “História Imediata da Vila Madalena: uma análise das influências em 2012 da história cultural do bairro na década de 80”. A tese estuda um período da década de 1980 e suas repercussões na contemporaneidade, a saber, os desdobramentos sociais, econômicos e políticos na história cultural do bairro. Para isso, o estudo se focou nos efeitos da presença de grupos de jovens vanguardistas nos bares da Vila Madalena. Isso se relaciona diretamente com o nosso tema, por se tratar dos locais onde os jovens se reuniam.

A tese se baseou nas ideias de “espetáculo” e de “espetacularização”, conceitos que foram analisados pelo cineasta Guy Dedord em sua teoria crítica da “sociedade do espetáculo”. O espetáculo seria uma vida real que é pobre e fragmentada, e os indivíduos seriam obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo que lhes falta em sua existência real. Por isso é que, para ele, o espetáculo é a substituição do concreto pela representação do real. Toda essa lógica inserida em uma sociedade capitalista.

A partir desse pensamento, Verri conseguiu desenvolver a seguinte ideia: “objetivamente, a aparência do espetáculo da Vila se faz representada por signos e imagens, os quais a tornam um lugar ‘espetacularizado’. Tais representações ajudam a compreender a inversão na qual vivemos – a valorização da aparência e do consumo e ainda, metaforicamente falando, do status da marca Vila Madalena. O fenômeno da aparência ajuda a ‘parecer’ que existe uma unificação das classes sociais. Isso explica, por meio da relação social mediada pelas imagens.” ( trecho citado último paragrafo da pag 97 até 98)

Nas páginas, 99 a 100 de sua tese a autora explica os conceitos de situacionismo e fala da relação deste com as vanguardas; “De acordo co Mário Perniola, (2007), o Situacionismo foi um movimento europeu de crítica social, cultural e política criado em julho de 1957, com a fundação da Internacional Situacionista em  Cosio d’ Aroscia, na Itália.Foi formado por um grupo de vanguarda, que tinha entre seus participantes: poetas, arquitetos, cineastas, artistas plásticos e outros profissionais. O situacionistas associavam a prática e a teoria por meio de uma série de intervenções, como em via de telegramas, distribuição de panfletos, declarações com o objetivo de marcar suas posições sociais,culturais e políticas. O grupo se definia como ‘uma vanguarda artística e política’, apoiada na crítica à sociedade de consumo e à cultura mercantilizada. A ideia de ‘situacionismo’, segundo eles, se relacionava à crença de que os indivíduos deveriam construir situações de suas vidas no cotidiano de modo a romper com a alienação em favor do prazer próprio.”

Para alcançar esse prazer próprio, os jovens da época se utilizavam do bar. “(…) tudo nos levava a crer que os vínculos entre o bar e as vanguardas estavam e estão no fato de ser o local onde se bebe, se come e onde é muito prático de se transformar em ponto de encontro entre amigos. Além disso, o fato do recinto do bar ser projetado e organizado para reunir pessoas em torno de uma mesa para conversar e ser servido, ainda se tem a autonomia de chegar, sair, sentar e levantar quando se deseja. O conjunto de todas essas facilidades estimula o encontro entre as pessoas.(…) O bar é o melhor lugar para encontrar amigos.” (trecho da página 94)

Mas, afinal o que isso tem a ver com nosso tema? Frequentemente, os bares são considerados por pessoas como um local improdutivo, ou para pessoas bêbadas e desocupadas. No entanto, é um lugar que, por conta de ser um local de reunião de amigos e pessoas, tem profunda importância sociocultural, sendo a vanguarda situacionista na vila madalena um bom exemplo disso.

-Carol, Isa, Lí e Vicky

Sociologia dos bares

Em seu livro Cenas da Vida, Rubem Alves traz várias crônicas, que estão divididas em três partes: Cenas da Infância, Cenas da Alma e Cenas da Escola. Encontrei uma das crônicas desse livro, chamada Sociologia dos bares, que além de ser bem interessante, relaciona-se diretamente com o nosso trabalho sobre bares e com o nosso objetivo de demostrar que os bares não são um lugar apenas para bêbados ou desocupados, mas um local de extrema importância sociocultural. Bom, aqui está a crônica:

SOCIOLOGIA DOS BARES

(Rubem Alves)

Acontece que o desejo de não estar sozinho bate de repente. A gente quer sair, mas não se atreve a visitar e é tarde para convidar. E foi nesse lugar de “desejar estar junto” que, me parece, aconteceu a metamorfose do bar, que de lugar de perdição acabou se tornando um lugar de comunhão. Os antigos não entendem. Minha sogra não o via com bons olhos – nem poderia ser diferente. Comparou o preço de uma cerveja do bar com o de uma do supermercado e não viu muita vantagem: “Não é muito mais econômico comprar a cerveja no supermercado e beber em casa?” Ela não sabia que bar não é lugar de beber. Lá a bebida é só desculpa para se estar junto. Do jeito mesmo como aconteceu no ritual eucarístico. Jesus não queria beber e comer. Ele queria estar junto, falar de amizade e saudade. E, para isso, valeu-se de pão e vinho.

Faz muito que a sociologia dos bares me fascina. Ela tem a ver com as várias relações entre as pessoas que acontecem dentro daquele espaço. Percebi que se parecem muito com as que acontecem em lugares sagrados. Há bares que se parecem com catedrais: são enormes, centenas de pessoas cabem lá dentro, as pessoas se perdem na multidão. Ir lá é como participar de uma romaria. Outros bares se parecem com pequenas capelas e mosteiros: as relações são íntimas, as pessoas se conhecem, os garçons são chamados pelo nome. Voltar a esse bar é voltar a um lugar já conhecido e amigo. Um freqüentador não é um cliente. Ele tem nome. Aí muitas coisas interessantes podem acontecer. Muita filosofia e muito amor nasceram em uma mesa de bar.

Não tem nada a ver com restaurante, onde raspado o prato vai-se embora. Barriga cheia, não há mais o que fazer. O tempo anda rápido. Nos bares é diferente: o tempo pára. Não se vai lá pensando em sair, mas em se desfazer dos objetivos do tempo.

Por vezes, o que se deseja é estar sozinho. Muito já entrei numa igreja, no meio do dia, só para estar só. Sozinho, num bar, lendo um livro, pensando. Isso, claro, se o bar não for do tipo igreja pentecostal, onde é proibido estar sozinho, pois o barulho é de tal ordem que a solidão é impossível. De uma boate conhecida se diz: “É muito romântica: todos falam com a boca colada no ouvido do outro”. Tem de ser assim, pois o barulho da música é tal que não se ouve o que a boca do outro diz.

É verdade que os bares já foram lugares de perdição. Eram, não onde as pessoas se perdiam, mas o lugar em que os que haviam se perdido em outros lugares vazios de alegria tentavam encontrar a alegria perdida.

Num tempo em que visitar caiu de moda, é bom saber que há um lugar onde é possível estar com os amigos.

(ALVES, Rubem. “Cenas da vida”, São Paulo: Papirus, 1997. P. 89 à 90)

Livro Cenas de Vida (3a Edição)

Livro Cenas de Vida (3a Edição)

– Isadora Vieira

Alegrias engarrafadas: os álcoois e a embriaguez na cidade de São Paulo no final do século XIX e começo do XX

Ao pesquisar sobre os bares em São Paulo e procurar estudos relacionados a esse tema, encontramos uma tese de Doutorado, feita por Daisy de Camargo, que analisa as relações sociais ligadas ao consumo de bebidas alcoólicas em nossa cidade. Pretendemos fazer um documentário sobre os bares em São Paulo e demonstrar a importância social e cultural desses através de relatos pessoais. Dessa forma, a tese de Camargo nos interessou muito, já que queremos explorar o que está por trás do que, para várias pessoas, parece apenas uma bebida. Selecionamos alguns dos trechos do trabalho que nos chamaram a atenção, mas o estudo inteiro pode ser acessado através do link indicado no final do post.

Tese de Doutorado de Daisy de Camargo na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras (Campus de Assis)

Apresentação

“Esse trabalho trata do consumo de bebidas alcoólicas na cidade de São Paulo no final do século XIX e começo do XX e das relações sociais que permeiam esse hábito, desvelando gestos e sensibilidades do cotidiano da cidade, captando costumes, modos de vida e sujeitos extintos. Ou seja, o objetivo foi o de explorar uma cultura gestual, material e sensível, historicamente construída, ligada às bebidas espirituosas, seus objetos, seus lugares de uso, suas maneiras e ritos de saborear. O propósito foi fazer uma história de coisas banais, recompor em cacos os espaços dos botequins, seus mobiliários, as bebidas que eram vendidas, as gentes que os frequentavam, os caminhos e disputas dos alcoóis e outras drogas no controle dos corpos.”bar3

“A pertinência de trazer os bêbados como personagens da cidade é que estes sujeitos apontaram para um caminho de fuga: tavernas e homens que despejam alegrias engarrafadas. Interpelar esses documentos sobre a embriaguez foi um caminho de leitura para revolver a São Paulo do final do século XIX e começo do XX e tentar dialogar com a cidade das tascas, dos botequins, do vinho e da cachaça.”

 Um passeio pelas tabernas e armazéns

“O balcão justifica, em parte, a falta de móveis para sentar. O tom é “encostar a barriga nele”, como até hoje se fala em Portugal. Essa peça desempenha o papel de centro de comunicação e intercâmbio, de encosto, ponto de apoio para quem bebe (e não se aguenta nas pernas), quem serve, para as garrafas e copos, para o preparo das bebidas. Ele, portanto, soma e divide, separa, mas ao mesmo tempo integra as relações e proximidades entre comerciante e borracho. “bar3

“Em seu estudo denominado As Tascas do Porto, Raul Pinto descreve esse universo de ambientes e objetos: amontoados de garrafões, cheios e vazios, muito utilizados no comércio popular a retalhos, como alternativa das pipas com torneiras rangentes, sem muito silêncio ou espaço, barricas, estantes de madeira envidraçadas, o velho balcão, mesas grandes e coletivas (que surgem no inventário tratado no capítulo anterior, de Bernardo Martins Meira), bancos grandes (talvez o correspondente de José Barbosa Braga sejam as marquesas), e, claro, sempre: sardinhas (que como me confessou um filho de uma nobre linhagem de botequineiros, aconselha-se servir bem salgada, para dilatar a sede de líquidos).”

Vida de taberneiro não era nada fácil

“A São Paulo do final do século XIX era ainda uma cidade misturada, que obrigava uma convivência entre negros e brancos, ricos e pobres, damas e mulheres desconsideradas. É claro que essa coexistência incomodava e era repleta de conflitos e repúdios. A reforma efetuada pela prefeitura na Praça da Sé, durante as administrações de Antônio Prado e Raimundo Duprat, tinha como objetivo varrer a geografia do prazer e da embriaguez. ”

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“Nas tabernas, tascas e botequins os princípios e regras de convivência são distintos dos ditados pela burguesia, pelo discurso da Medicina e do Direito. Cria-se aí toda uma gama de disputas e intolerâncias em relação às tabernas e botequins e mesmo ao cheiro e ao gosto da aguardente, assim como a um conjunto de atitudes associadas aos meios populares, como o “beber até cair”. Uma parte da cidade se agastava com os botecos que ficavam abertos à noite, no contrafluxo das cafeterias vespertinas. Nesses ambientes todos tinham direito de sentar à mesa de estranhos e intervir nas conversações. Era uma atmosfera de extroversão e disponibilidade. Um simples gesto como o brinde trazia à tona toda uma carga de inclusão e demonstração de laços entre bebedores.”

“Não é por acaso que no decorrer da segunda metade do século XIX houve uma perseguição e investida de extinção das tabernas na cidade, onde a disciplina imposta pelo institucional passa por um projeto de policiamento dos costumes. A partir dos anos de 1850 a vida ficou cada vez mais difícil para os taberneiros, como José Barbosa Braga, estabelecidos na cidade de São Paulo. Eram frequentemente acusados de desonestos e de envenenarem a cachaça com água. A implicância aumentou quando as novas modas de comércio que surgiram na cidade, consideradas signos de progresso, tais como os cafés, confeitarias e restaurantes, eram colocadas em oposição às tabernas pela grande imprensa.”bar2

“De todo modo, vale destacar que essa atitude de estereotipar os hábitos dos borrachos das camadas populares não é de espreita, isolada. O debate em torno do uso de bebidas alcoólicas que ocorreu no decorrer do século XIX clareia o contato entre o refluxo do mal e da impureza e o projeto civilizador. Mergulhamos num mundo de adoração da racionalidade. O despertar dos sentidos passa a ser atrelado a uma suposta insuficiência de civilização e de falta de domínio das cidades e dos corpos. A estabilidade é apostada na vitória da higiene e da suavidade, da cultura da temperança, dos bons costumes. Houve um refinamento no que diz respeito aos graus de agrado ou impertinência: maus cheiros, miasmas, tudo que soasse fétido, podre e sujo. A conduta do código dos usos seria a da limpeza. É o universo técnico e prepotente apresentando suas soluções ilusórias e efetivas.”

O texto acima são apenas cortes do texto original de Daisy de Camargo. Sua tese na íntegra está no link abaixo:

http://www.athena.biblioteca.unesp.br/exlibris/bd/bas/33004048018P5/2010/camargo_d_dr_assis.pdf

– Carol, Lí, Isa, Vick

Bar ruim é lindo, bicho! (uma crônica pra alegrar o dia cinza)

Antonio Prata

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem).

No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.

– Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.

O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).

– Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?


– Carol Medina

As Rodas de Samba e Liberto Trindade

Retomando os nosso tema “Histórias de bar” tais estabelecimentos no Brasil sempre foram os locais que abrigavam as famosas rodas de samba que designam uma mistura de música, dança, poesia e festa.O “samba de roda” teria surgido por inspiração sobretudo de um ritmo africano, o semba, e teria sido formado a partir de referências dos mais diversos ritmos tribais africanos. Com a modernização e urbanização do samba de roda os bares acabaram por se tornar berços de compositores e músicos renomados. Assim na nossa visita à sede da escola de samba Vai Vai, tivemos uma conversa com Liberto Trindade que nos contou um pouco mais sobre o estilo musical e sua própria história dentro do samba.

“Foi no período de 77 que eu vim pra escola já com

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Liberto Trindade em 8º Cine Palmarino – “Solano 100 anos” http://cinepalmarino.blogspot.com.br/p/fotos.html

o embaixador; . A gente tem um trabalho aqui bonito mas falta algumas coisas que a escola precisa se apegar que é a questão da cultura geral. O que eu quero dizer é o seguinte: se a gente não faz uma cultura como um todo então  fica aquela coisa ah os cara são bons de bumbo, reco-reco,  os caras só sabem sambar e não conseguem enxergar o trabalho que a escola fez ao longo dos anos.”

[…]

No nosso tema procuramos despragmatizar a figura da pessoa que frequenta os bares, assim, podemos ver a relação com a visão que as pessoas tem sobre o samba esquecendo de todo seu aspecto cultural e social.

“Veja bem eu estou com duas aposentadorias e além de trabalhar eu fui do movimento negro, desfilo no Afoxé a 32 anos, trabalhei em teatro e em várias empresas de São Paulo e Rio de Janeiro,  fui a terreiro de candomblé e ao mesmo tempo fiz tudo isso. Mesmo trabalhando e tendo hoje quatro filhos, o samba não atrapalhou em nada. Eu já fui sindicalista… fui diretor sindical seis vezes e já apanhei da policia, já levei muita borrachada. Eu só não apanhei no samba porque eu já cheguei numa época maleável a década de 60, mas antes dos anos 60 a polícia vinha furar o couro, furar os instrumentos”

.

“O samba é se vivenciar a cultura, é uma universidade da vida, um verdadeiro ensinamento. Ele conta a história do Brasil, conta história do mundo, conta história dos artistas, dos poetas, do pessoal que trabalha com xilogravura com pintura,  fala dos operários das empregadas domésticas.Toda a sociedade e todas as classes sociais estão embutidas aqui. O samba é uma maravilha! É uma coisa que a gente se orgulha de dizer que é sambista.”

“O samba já falou de todas as culturas e tem muito mais pra falar. Por exemplo se a gente fala da Bahia agente não consegue terminar 20 ou 30 anos… de São Paulo também não consegue terminar…  da Vai vai também não. Eu já aprendi tanta coisa. O samba é tão rico tão gratificante sabe? Não tem palavras. Estou falando assim porque ele nos possibilita cultura.Então quando vocês saírem daqui saiam com essa imagem positiva do samba.”

“Você se assustava quando há 10 anos atrás o ônibus parava aqui em frente e descia uma montoeira, um formigueiro de gente. Então a Vai Vai é um quilombo urbano mesmo, no sentido de ser um centro de resistência. Você vê essas pessoas hoje cantando suas próprias composições e fazendo coisas muito bonitas. Eu ainda vou ver eles tocando em bares, até na televisão sendo reconhecidos. ”

Homens vestidos de mulher no carnaval de rua de São Paulo http://fashnblog.blogspot.com.br/2013/02/fantasias-de-carnaval.html

Homens vestidos de mulher no carnaval de rua de São Paulo
http://fashnblog.blogspot.com.br/2013/02/fantasias-de-carnaval.html

Liberto terminou a conversa falando um pouco sobre seu pai Solano Trindade, poeta e artista brasileiro e forte integrante do movimento negro e de lutas populares. Queria pegar esse espaço do blog para compartilhar um video que relata melhor a vida de Solano e suas convicções e ideais que acabaram sendo passados para Liberto, tornando-o assim o homem engajado no social e apaixonado pelo samba que vimos na nossa visita  à sede da Vai Vai.

“Ainda sou poeta
meu poema
levanta os meus irmãos.
Minhas amadas
se preparam para a luta,
os tambores
não são mais pacíficos
até as palmeiras
têm amor à liberdade”.
(trecho do poema “Canto dos Palmares”)

Solano Trindade

Solano Trindade

Um beijo!

Carol Medina

Na esquina mais famosa de São Paulo

No primeiro dia da viagem do Estudo do Meio, eu e meu grupo (roteiro 6) estávamos andando da Rua Santa Efigênia até a galeria do Rock e passamos pela esquina da Avenida São João com a Ipiranga, mais conhecida como a esquina mais famosa de São Paulo. O professor Marcos (professor de geografia do ano abaixo), que estava nos acompanhando naquele dia, me contou que ali era o Bar Brahma, um tradicional bar da cidade, fundado em 1948. O bar testemunhou importantes fatos da nossa história, ele esteve presente desde as acaloradas discussões sobre a repressão política na década de 60 até as comemorações de 450 anos da metrópole em 2004. O lugar viveu dias de glória nos anos 50 e 60, quando era ponto de encontro de intelectuais, músicos e políticos, mas na década de 90 teve um período de decadência, sendo revitalizado em 2001. O estabelecimento realmente se localiza em um endereço poético, pois como já dizia Caetano Veloso em sua famosa música Sampa (de 1978), sobre a cidade de São Paulo, “alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João(…)”. Aqui embaixo estão algumas imagens do bar e o vídeo da música de Caetano.

Sampa – Caetano Veloso

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim, Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos Mutantes

E foste um difícil começo
Afasta o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os Novos Baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

Bar Brahma, na esquina da Avenida São João com a Ipiranga

Bar Brahma, na esquina da Avenida São João com a Ipiranga (https://critiquese.wordpress.com/2010/06/)

– Isa Vieira

Histórias de Bar – Explicações Sobre o Tema


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Os bares, historicamente, sempre foram acreditados de serem lugares para escapar da realidade, o refúgio de pessoas e artistas. Eles tem a sua própria história e englobam a vida de muitos. Por esse e vários motivos optamos por trabalhar em cima deste tema e pesquisar os bares e as pessoas que os frequentam na cidade de São Paulo. No vídeo abaixo há mais algumas explicações feitas por nós, Carol, Isa, Lívia e Vick.

https://www.youtube.com/watch?v=NiyQT9NHiHc&feature=youtu.be

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cena do filme Casablanca, do diretor Michel Curtiz.

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Fundadores do bar argentino “Bárbaro” em 1970.

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Bar “Sloppy Joe’s” em Havana.

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cena do filme “Dá Licença de Contar”, do diretor Pedro Soffer Serrano.

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bar nova iorquino: Pj Clarke

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Whisky Jack Daniel’s

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bar em Nova York em 1920.

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mulheres em bar francês na década de 20.