Heróis Brasileiros – Carolina Maria de Jesus

Olá! Eu escrevi um post um tempo atrás sobre o poeta Solano Trindade inspirado na entrevista que tivemos com seu filho Liberto Trindade quando visitamos a sede da Vai Vai nos três dias de “travessia” por São Paulo. Com a pesquisa sobre Solano, fiquei muito emocionada com a sua história e tocada por também ter a mesma origem que eu (Embu das Artes). Solano foi um grande ativista do movimento negro, lutando pela a igualdade racial. Recentemente entrei em contato com um vídeo da pesquisa FAPESP sobre a escritora brasileira Carolina Maria de Jesus. Carolina igualmente me emocionou, ao passo que, sua vida, apesar de todo o seu talento para a arte, foi vivida na pobreza. Foi uma mulher negra e pobre extremamente forte com poesias totalmente sensíveis e recheadas de emoção e dor. Ambos escritores não são reconhecidos devidamente e por isso venho aqui divulgar a sua arte, com anos de atraso. Em vida lutaram através da literatura contra o racismo e segregação, e por isso, seu esquecimento é inadmissível.

Não digam que fui rebotalho,
que vivi à margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho,
mas fui sempre preterida.
Digam ao povo brasileiro
que meu sonho era ser escritora,
mas eu não tinha dinheiro
para pagar uma editora.

(Carolina Maria de Jesus, que não nasceu pra ser teleguiada…)

Beijos,

Carol M.

Ultimas Conversas – Uma Análise Sobre a Velhice e a Juventude

O filme Últimas Conversas, dirigido por Eduardo Coutinho, tem 75 minutos e estreou no dia 7 de maio de 2015 no festival de longas É Tudo Verdade. O documentário intercala entre entrevistas com jovens majoritariamente de escolas públicas do Rio de Janeiro e com o próprio documentarista Eduardo Coutinho. A morte do diretor ocorreu subitamente no final da produção do longa que, por isso, foi montado postumamente por João Moreira Salles e Jordana Berg. 

A escolha de fazer o filme com jovens foi desanimando o cinegrafista durante as filmagens . Coutinho, no início do filme, relata às câmeras que ele queria respostas menos óbvias e seu desejo real era de entrevistar crianças, por conta da pureza e ingenuidade características da infância se contrapondo à visão mais pessimista dos adolescentes sobre o mundo. Ao final da obra há uma entrevista com Luiza, uma menina de 6 anos, que muda o filme totalmente de atmosfera. Luiza vê questões como família e religião com muita inocência,  que causa humor e descontração, contrastando com os relatos dos jovens que se mostram mais negativos e descrentes por conta de terem sido tocados por experiências fortes.

O documentário apesar de selecionar entrevistados com características semelhantes, apresenta  adolescentes muito diferentes entre si.  Uma das meninas, por exemplo, fala com os olhos brilhando sobre o namorado logo após se abrir sobre o seu passado doloroso, enquanto outra argumenta que o amor é uma ilusão, colocando-se numa posição mais  incrédula. Os entrevistados também apresentam perspectivas diversas e às vezes até opostas sobre assuntos como cotas raciais para universidades públicas e a relação deles com os pais. A película , assim, não demonstra nenhum juízo de valor, pois iguala a relevância de todas as opiniões.

Outra antítese presente  é o distanciamento do cinegrafista com os entrevistados, seja por raça, classe social ou idade. Apesar disso, o longa, ao incluir o relato inicial de Coutinho, apresenta também uma forma biográfica de retratar as visões do diretor e seus sentimentos. Ao olharmos para o filme com a noção de que ele foi contemporâneo à sua morte, é possível perceber uma conexão entre temáticas da adolescência e a própria vida de Coutinho. Assim, o longa, citando Machado de Assis, consegue  “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”. Portanto, o filme é extremamente recomendado aos leitores que se interessam por documentários e por Eduardo Coutinho.

Aqui está o trailer do filme:

http://www.youtube.com/watch?v=VYt77oTefCE

Happy

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Durante os últimos meses, tivemos várias discussões em nossas aulas de história, sendo uma delas sobre a felicidade. Discutimos o que é ser feliz, o que precisamos ou pretendemos atingir na vida para obter tal sentimento e inclusive se é sequer possível alcançar a felicidade, ou se podemos apenas ter momentos felizes.

Como faremos um documentário sobre histórias de bar em São Paulo, estava procurando alguns documentários para assistir e ter algumas ideias. Acabei assistindo a um chamado Happy, lançado em 2011 e dirigido por Roko Belic e me lembrei muito das discussões feitas em aula.  Esse documentário, através de entrevistas com pessoas das mais diversas culturas e regiões do planeta e de entrevistas com estudiosos e pesquisadores, fala sobre as causas da felicidade genuína.

O filme investiga o que é a felicidade genuína e mostra várias pessoas, com modos de vida muito distintos entre si, e o que faz cada uma delas feliz. É mostrada por exemplo, desde a tribo San do Deserto Kalahari em Namíbia, que preserva sua cultura e vive da caça e coleta até uma mãe divorciada e desempregada da Dinamarca, que acabou indo morar com suas filhas numa comunidade de coabitação, onde convivem com outras vinte famílias, que dividem atividades e se apoiam.

Portanto, ao assistir Happy entramos em contato com distintos costumes, modos de viver e modos de pensar. O filme também nos faz refletir sobre as nossas atitudes, faz com que pensemos sobre a maneira como encaramos nossa realidade, como nos relacionamos com as pessoas e se somos gratos pelas coisas boas que temos. O documentário é muito interessante, e está disponível no Netflix, realmente recomendo-o para todos.

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– Isa Vieira

Resenha do filme Terra Sonâmbula

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O filme Terra Sonâmbula, baseado no livro de mesmo nome, foi uma adaptação, através da visão da diretora portuguesa Teresa Prata, que, em nossa opinião, desconstruiu o universo criado por Mia Couto em seu livro. Terra Sonâmbula conta a história do menino Muidinga (Nick Lauro Teresa) e o velho Tuahir (Aladino Jasse), dois companheiros de viagem, que durante a guerra civil moçambicana, andam sem rumo, apenas procurando fugir dos bandos. Num machimbombo (ônibus) incendiado em que eles se abrigam, eles encontram nos pertences de uma das pessoas mortas que estão ali, vários cadernos que contam a história de um chamado Kindzu (Hélio Fumo). A partir daí, eles começam a ler esses cadernos e começam a “entrar” na história de Kindzu, que passa a ser narrada paralelamente à deles. O filme é uma coprodução portuguesa e moçambicana, foi filmado em Moçambique com atores deste país e foi lançado no ano de 2007.

O filme, tanto por não apresentar importantes passagens do livro quanto por não apresentar determinadas personagens, é ruim em comparação ao livro. Em primeiro lugar, o longa metragem não traz um monte de fatos essenciais, como o de que o objetivo da fuga de Kindzu era achar os naparamas (guerreiros blindados) e se juntar a eles, informação importante por mostrar a tentativa do personagem de encontrar o seu lugar no mundo, sua utilidade e, consequentemente, sua identidade.  Outro fato importante omitido no filme é o de que Surendrá (indiano amigo de Kindzu) abriu, junto com Romão Pinto e Assane (colono e secretário, respectivamente, da região de Matimati) um negócio de transportes. Isso mostrava que, mesmo após a independência de Moçambique, a lógica colonial ainda influenciava a cultura do país, já que a ideia de tirar proveito econômico de alguém permanecia. As pessoas não se viam como um próprio povo, ou seja, como iguais. A propósito, Assane, assim como outros personagens marcantes, nem chegou a aparecer no filme.

Além disso, o filme desconstrói o universo criado por Mia Couto em seu livro. Nesse Couto apresenta uma mistura da realidade com o sonho, há passagens em que o leitor fica em dúvida se o que está acontecendo é a realidade ou não, o próprio narrador-personagem Kindzu diz que pode não distinguir uma dimensão da outra. No filme, no entanto, toda essa questão do imaginário é desconsiderada, e essa visão subjetiva dos fatos é muito pouco abordada. O filme também não dá tanto destaque a analogia feita por Mia Couto, em que a chamada Terra Sonâmbula mostraria o espírito das pessoas, que andariam com incerteza, movidas apenas pela esperança de que a guerra um dia acabasse. O sonambulismo seria o tempo de guerra, e quando essa acabasse, as pessoas acordariam.

Dessa forma, consideramos o livro mais interessante do que o filme. Esse segundo ignora elementos da narrativa que deveriam ter sido abordados no longa já que são importantes para a construção do universo criado por Couto. Portanto, o filme pode até ser uma boa forma de entretenimento, mas para aqueles que já leram o livro e que se impressionaram com a obra, o filme se torna um pouquinho decepcionante.

– Lí, Isa, Carol e Vick