O que aprendi com o nosso projeto? – Isa

Oi gente, tudo bom?

No mês passado, terminamos o nosso minidocumentário sobre os bares na cidade de São Paulo. Por um lado, foi um projeto legal de se fazer pois a ideia era boa e diferente dos trabalhos dos anos anteriores. Por outro lado, podemos realmente chamar isso de trabalho, porque tivemos que dedicar um tempo e paciência absurdos a ele.

Uma das coisas que aprendi ao fazer o documentário foi a ter mais atenção e não fazer as gravações com pressa, pois teve vezes em que esquecemos de conferir o equipamento e comprometemos a qualidade da entrevista ou até mesmo não pudemos usá-la. O projeto também me mostrou que para trabalhar em grupo é preciso ter paciência, mas também nunca deixar de dizer algo que você pensa, pois isso pode ser pior para o trabalho no final. Como fomos a diversos bares fazer entrevistas, uma coisa muito boa que o minidocumentário acabou me proporcionando foi o encontro com pessoas novas, que eram dos mais diversos tipos e nos contaram relatos muito legais. Além disso, o projeto permitiu que tivéssemos um grande contato com nossa cidade, o que foi muito importante.

Acho que o blog e o minidocumentário traduzem o processo de aprendizado que tivemos ao longo desse ano. Quando começamos o blog no começo do ano ainda estávamos menos inspiradas, mas conforme os meses foram passando, surgiram mais idéias de como trabalhar o tema, fizemos mais posts sobre os bares e a cidade de São Paulo e também fomos aprimorando a estética e os recursos do blog. O mesmo aconteceu com o documentário, não tínhamos um roteiro fechado de como seria exatamente a montagem do filme, mas conforme saíamos para fazer as entrevistas, pensávamos em novas idéias, no que ainda faltava, no que já tínhamos conseguido e em como juntaríamos tudo. Tivemos também muitas dificuldades em lidar com o tempo, com nossas diferentes opiniões e personalidades, com o estresse e tudo mais, mas essas coisas e nossas tentativas de superá-las também refletem no produto final.

Mesmo com todos os problemas, não deixou de ser um projeto muito interessante e, com certeza memorável. Espero que todos tenham gostado do blog e do nosso minidocumentário. Um grande beijo!

Isa Vieira

Reflexões sobre o projeto- O processo-Lí Garcia

Trabalhoso. Exaustivo. Enlouquecedor, contagiante e surpreendente. Fazer um documentário foi muito mais desafiador do que eu esperava, ao mesmo tempo que fiquei animada com o tema, com a ideia e achasse que isso fosse fazer com que eu me esforçasse mais, por vezes me achava com a menor vontade de realizar ta projeto, pelo cansaço da semana e por ser mais uma coisa a ser feita. Entretanto, essa “Santa Ignorância”, estranhamente passava assim que começava a conversar com alguém ou quando começava a prestar mais atenção ao que me falavam. Em outras palavras, o tempo que acaba dedicando ao blog, acabava sendo o mesmo tempo que ampliava meu repertório de mundo, e, posteriormente acabava sendo uma autoafirmação de que não podia me deixar mergulhar em “minha caixinha”.

O documentário desconstruiu na minha cabeça, a ideia de que trabalhar com arte visual, em geral era fácil, mas dá muito mais trabalho, dedicação, tempo, paciência do que é esperado. Essa ideia vinha dos meus amigos, que faziam algo relacionado a arte visual, que transpareciam a ideia de ser fácil.

O blog foi a evolução desse processo, sendo que o primeiro bimestre se caracterizou por parecer ser algo fácil, informal de ser feito; o segundo e terceiros bimestres foram os mais desafiadores em questão de esforço e trabalho. Isso ocorreu, em decorrência de o tema ter de ser estudado mais profundamente. Sendo que os posts acabaram ficando mais profundos mais densos e mais detalhados.

Essa mudança também pode ser percebida nas entrevistas do minidocumentário, uma vez que reparamos, durante a primeira entrevista que o som estava em péssima qualidade e  que seria necessário a utilização de um microfone, mudanças que adotamos nas entrevistas seguintes.

Abraços, Lí Garcia.

2ª Sessão Descarrego de Sugestões

Teatro:

Inspirado no livro “História de Cronópios e de Famas” do escritor argentino Julio Cortázar, o espetáculo acompanha a história de três personagens que decidem fazer um manual para a vida, certos de que ela pode ser dividida em três partes: a relação do indivíduo com ele mesmo, com o mundo e com a morte.

27 de maio a 29 de julho
Quartas-feiras, às 20h
Classificação: livre.
Ingressos R$ 15,00 a R$3,00 (na bilheteria do CCSP ou no Ingresso Rápido)
Centro Cultural São Paulo, sala Adoniran Barbosa
Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso, São Paulo – SP

Música:

O sábado começa com o som diversificado e modernoso dos baianos do Vivendo do Ócio. Na sequência, é a vez dos gaúchos do Cachorro Grande, e pra fechar a noite com chave de metal, a maior e mais técnica banda de Death Metal nacional: Krisiun.
Programação integrante do Circuito São Paulo de Cultura.

Dia 11/07, sábado, das 18h às 22h. Praça em Frente ao CCJ.
Livre para todos os públicos. Não é necessário retirar ingresso.

Mais informações no site: www.ccjuve.prefeitura.sp.gov.br/evento/festival-do-rock-no-ccj

Cinema:

Cinema Paradiso, clássico do cinema italiano, apresenta filmes nacionais ao ar livre com entrada gratuita na Casa Das Rosas (Avenida Paulista, 37, 01311-902)

SESSÕES:

2 de julho, às 19h30
Lisbela e o prisioneiro (2003)

16 de julho, às 19h30
A marvada carne (1985)

23 de julho, às 19h30
Abril despedaçado (2001)

30 de julho, às 19h30
Macunaíma (1969)

Arte:

e agora a minha dica preferida…

Para celebrar a abertura da exposição Macanudismo o Centro Cultural Correios recebe Liniers para pintar um mural especialmente para a mostra. O artista terá como companhia a música do compositor Cheba Massolo. Local: Centro Cultural Correios – 1° andar

PROGRAMAÇÃO

ABERTURA – 04/07 SÁBADO às 11h
Pintura ao vivo de Liniers + música de Cheba Massolo

05/07 DOMINGO
PALESTRA: UNIVERSO MACANUDO | LINIERS
Horário: das 11h30 às 13h

18/07 SÁBADO
OFICINA: QUADRINHOS PARA INICIANTES (:D)| DIEGO SANCHES .
Horário: das 11h30 às 16h30

25/07 SÁBADO
MESA REDONDA CARTOON, CHARGE, DESENHO: NO BRASIL E LÁ FORA | LAERTE COUTINHO e GUSTAVO DUARTE
Horário: das 15h às 16h30

08/08 SÁBADO
OFICINA: QUADRINHOS SEM PALAVRAS | GUSTAVO DUARTE
A proposta da oficina é mostrar ao público como funciona a narrativa dos quadrinhos sem diálogos. Ao final da sessão, cada participante irá produzir uma pequena história.
Horário: das 11h30 às 16h30

22/08 SÁBADO
PALESTRA: VIDA DE CARTUNISTA | ADÃO ITURRUSGARAI
Horário: das 11h30 às 13h

23/08 DOMINGO
OFICINA: INTRODUÇÃO AO MUNDO DA TIRA, COM OU SEM HUMOR | ADÃO ITURRUSGARAI
Horário: das 14h às 17h

Gente vai ser tudo muito legal, prometo, confiram!

Beijão,

– Carol M.

Heróis Brasileiros – Carolina Maria de Jesus

Olá! Eu escrevi um post um tempo atrás sobre o poeta Solano Trindade inspirado na entrevista que tivemos com seu filho Liberto Trindade quando visitamos a sede da Vai Vai nos três dias de “travessia” por São Paulo. Com a pesquisa sobre Solano, fiquei muito emocionada com a sua história e tocada por também ter a mesma origem que eu (Embu das Artes). Solano foi um grande ativista do movimento negro, lutando pela a igualdade racial. Recentemente entrei em contato com um vídeo da pesquisa FAPESP sobre a escritora brasileira Carolina Maria de Jesus. Carolina igualmente me emocionou, ao passo que, sua vida, apesar de todo o seu talento para a arte, foi vivida na pobreza. Foi uma mulher negra e pobre extremamente forte com poesias totalmente sensíveis e recheadas de emoção e dor. Ambos escritores não são reconhecidos devidamente e por isso venho aqui divulgar a sua arte, com anos de atraso. Em vida lutaram através da literatura contra o racismo e segregação, e por isso, seu esquecimento é inadmissível.

Não digam que fui rebotalho,
que vivi à margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho,
mas fui sempre preterida.
Digam ao povo brasileiro
que meu sonho era ser escritora,
mas eu não tinha dinheiro
para pagar uma editora.

(Carolina Maria de Jesus, que não nasceu pra ser teleguiada…)

Beijos,

Carol M.

Argumento – Mini Documentário “Histórias de Bar”

Fazer da boemia uma arte, uma tese, um estudo. Não existiria poesia se não existissem purificações alcoólicas da alma -Marília Miños

O vídeo abaixo apresenta nossas propostas e ideias em relação ao nosso projeto final: um mini-documentário:

Além das fontes citadas no vídeo utilizamos também os sites a seguir pra embasar nossa pesquisa:

http://www.foodservicenews.com.br/turismo-influencia-projecao-para-bares-e-restaurantes/

http://www.visitesaopaulo.com/dados-da-cidade.asp

E agora só pra descontrair: aqui está um vídeo dos erros de gravação do dia das filmagens…

Ultimas Conversas – Uma Análise Sobre a Velhice e a Juventude

O filme Últimas Conversas, dirigido por Eduardo Coutinho, tem 75 minutos e estreou no dia 7 de maio de 2015 no festival de longas É Tudo Verdade. O documentário intercala entre entrevistas com jovens majoritariamente de escolas públicas do Rio de Janeiro e com o próprio documentarista Eduardo Coutinho. A morte do diretor ocorreu subitamente no final da produção do longa que, por isso, foi montado postumamente por João Moreira Salles e Jordana Berg. 

A escolha de fazer o filme com jovens foi desanimando o cinegrafista durante as filmagens . Coutinho, no início do filme, relata às câmeras que ele queria respostas menos óbvias e seu desejo real era de entrevistar crianças, por conta da pureza e ingenuidade características da infância se contrapondo à visão mais pessimista dos adolescentes sobre o mundo. Ao final da obra há uma entrevista com Luiza, uma menina de 6 anos, que muda o filme totalmente de atmosfera. Luiza vê questões como família e religião com muita inocência,  que causa humor e descontração, contrastando com os relatos dos jovens que se mostram mais negativos e descrentes por conta de terem sido tocados por experiências fortes.

O documentário apesar de selecionar entrevistados com características semelhantes, apresenta  adolescentes muito diferentes entre si.  Uma das meninas, por exemplo, fala com os olhos brilhando sobre o namorado logo após se abrir sobre o seu passado doloroso, enquanto outra argumenta que o amor é uma ilusão, colocando-se numa posição mais  incrédula. Os entrevistados também apresentam perspectivas diversas e às vezes até opostas sobre assuntos como cotas raciais para universidades públicas e a relação deles com os pais. A película , assim, não demonstra nenhum juízo de valor, pois iguala a relevância de todas as opiniões.

Outra antítese presente  é o distanciamento do cinegrafista com os entrevistados, seja por raça, classe social ou idade. Apesar disso, o longa, ao incluir o relato inicial de Coutinho, apresenta também uma forma biográfica de retratar as visões do diretor e seus sentimentos. Ao olharmos para o filme com a noção de que ele foi contemporâneo à sua morte, é possível perceber uma conexão entre temáticas da adolescência e a própria vida de Coutinho. Assim, o longa, citando Machado de Assis, consegue  “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”. Portanto, o filme é extremamente recomendado aos leitores que se interessam por documentários e por Eduardo Coutinho.

Aqui está o trailer do filme:

http://www.youtube.com/watch?v=VYt77oTefCE

História Imediata da Vila Madalena: uma análise das influências em 2012 da história cultural do bairro na década de 1980

Ao pesquisar sobre a importância dos bares na cidade de São Paulo, encontramos uma tese de doutorado escrita por Solange Whitaker Verri. O trabalho é intitulado “História Imediata da Vila Madalena: uma análise das influências em 2012 da história cultural do bairro na década de 80”. A tese estuda um período da década de 1980 e suas repercussões na contemporaneidade, a saber, os desdobramentos sociais, econômicos e políticos na história cultural do bairro. Para isso, o estudo se focou nos efeitos da presença de grupos de jovens vanguardistas nos bares da Vila Madalena. Isso se relaciona diretamente com o nosso tema, por se tratar dos locais onde os jovens se reuniam.

A tese se baseou nas ideias de “espetáculo” e de “espetacularização”, conceitos que foram analisados pelo cineasta Guy Dedord em sua teoria crítica da “sociedade do espetáculo”. O espetáculo seria uma vida real que é pobre e fragmentada, e os indivíduos seriam obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo que lhes falta em sua existência real. Por isso é que, para ele, o espetáculo é a substituição do concreto pela representação do real. Toda essa lógica inserida em uma sociedade capitalista.

A partir desse pensamento, Verri conseguiu desenvolver a seguinte ideia: “objetivamente, a aparência do espetáculo da Vila se faz representada por signos e imagens, os quais a tornam um lugar ‘espetacularizado’. Tais representações ajudam a compreender a inversão na qual vivemos – a valorização da aparência e do consumo e ainda, metaforicamente falando, do status da marca Vila Madalena. O fenômeno da aparência ajuda a ‘parecer’ que existe uma unificação das classes sociais. Isso explica, por meio da relação social mediada pelas imagens.” ( trecho citado último paragrafo da pag 97 até 98)

Nas páginas, 99 a 100 de sua tese a autora explica os conceitos de situacionismo e fala da relação deste com as vanguardas; “De acordo co Mário Perniola, (2007), o Situacionismo foi um movimento europeu de crítica social, cultural e política criado em julho de 1957, com a fundação da Internacional Situacionista em  Cosio d’ Aroscia, na Itália.Foi formado por um grupo de vanguarda, que tinha entre seus participantes: poetas, arquitetos, cineastas, artistas plásticos e outros profissionais. O situacionistas associavam a prática e a teoria por meio de uma série de intervenções, como em via de telegramas, distribuição de panfletos, declarações com o objetivo de marcar suas posições sociais,culturais e políticas. O grupo se definia como ‘uma vanguarda artística e política’, apoiada na crítica à sociedade de consumo e à cultura mercantilizada. A ideia de ‘situacionismo’, segundo eles, se relacionava à crença de que os indivíduos deveriam construir situações de suas vidas no cotidiano de modo a romper com a alienação em favor do prazer próprio.”

Para alcançar esse prazer próprio, os jovens da época se utilizavam do bar. “(…) tudo nos levava a crer que os vínculos entre o bar e as vanguardas estavam e estão no fato de ser o local onde se bebe, se come e onde é muito prático de se transformar em ponto de encontro entre amigos. Além disso, o fato do recinto do bar ser projetado e organizado para reunir pessoas em torno de uma mesa para conversar e ser servido, ainda se tem a autonomia de chegar, sair, sentar e levantar quando se deseja. O conjunto de todas essas facilidades estimula o encontro entre as pessoas.(…) O bar é o melhor lugar para encontrar amigos.” (trecho da página 94)

Mas, afinal o que isso tem a ver com nosso tema? Frequentemente, os bares são considerados por pessoas como um local improdutivo, ou para pessoas bêbadas e desocupadas. No entanto, é um lugar que, por conta de ser um local de reunião de amigos e pessoas, tem profunda importância sociocultural, sendo a vanguarda situacionista na vila madalena um bom exemplo disso.

-Carol, Isa, Lí e Vicky

Sociologia dos bares

Em seu livro Cenas da Vida, Rubem Alves traz várias crônicas, que estão divididas em três partes: Cenas da Infância, Cenas da Alma e Cenas da Escola. Encontrei uma das crônicas desse livro, chamada Sociologia dos bares, que além de ser bem interessante, relaciona-se diretamente com o nosso trabalho sobre bares e com o nosso objetivo de demostrar que os bares não são um lugar apenas para bêbados ou desocupados, mas um local de extrema importância sociocultural. Bom, aqui está a crônica:

SOCIOLOGIA DOS BARES

(Rubem Alves)

Acontece que o desejo de não estar sozinho bate de repente. A gente quer sair, mas não se atreve a visitar e é tarde para convidar. E foi nesse lugar de “desejar estar junto” que, me parece, aconteceu a metamorfose do bar, que de lugar de perdição acabou se tornando um lugar de comunhão. Os antigos não entendem. Minha sogra não o via com bons olhos – nem poderia ser diferente. Comparou o preço de uma cerveja do bar com o de uma do supermercado e não viu muita vantagem: “Não é muito mais econômico comprar a cerveja no supermercado e beber em casa?” Ela não sabia que bar não é lugar de beber. Lá a bebida é só desculpa para se estar junto. Do jeito mesmo como aconteceu no ritual eucarístico. Jesus não queria beber e comer. Ele queria estar junto, falar de amizade e saudade. E, para isso, valeu-se de pão e vinho.

Faz muito que a sociologia dos bares me fascina. Ela tem a ver com as várias relações entre as pessoas que acontecem dentro daquele espaço. Percebi que se parecem muito com as que acontecem em lugares sagrados. Há bares que se parecem com catedrais: são enormes, centenas de pessoas cabem lá dentro, as pessoas se perdem na multidão. Ir lá é como participar de uma romaria. Outros bares se parecem com pequenas capelas e mosteiros: as relações são íntimas, as pessoas se conhecem, os garçons são chamados pelo nome. Voltar a esse bar é voltar a um lugar já conhecido e amigo. Um freqüentador não é um cliente. Ele tem nome. Aí muitas coisas interessantes podem acontecer. Muita filosofia e muito amor nasceram em uma mesa de bar.

Não tem nada a ver com restaurante, onde raspado o prato vai-se embora. Barriga cheia, não há mais o que fazer. O tempo anda rápido. Nos bares é diferente: o tempo pára. Não se vai lá pensando em sair, mas em se desfazer dos objetivos do tempo.

Por vezes, o que se deseja é estar sozinho. Muito já entrei numa igreja, no meio do dia, só para estar só. Sozinho, num bar, lendo um livro, pensando. Isso, claro, se o bar não for do tipo igreja pentecostal, onde é proibido estar sozinho, pois o barulho é de tal ordem que a solidão é impossível. De uma boate conhecida se diz: “É muito romântica: todos falam com a boca colada no ouvido do outro”. Tem de ser assim, pois o barulho da música é tal que não se ouve o que a boca do outro diz.

É verdade que os bares já foram lugares de perdição. Eram, não onde as pessoas se perdiam, mas o lugar em que os que haviam se perdido em outros lugares vazios de alegria tentavam encontrar a alegria perdida.

Num tempo em que visitar caiu de moda, é bom saber que há um lugar onde é possível estar com os amigos.

(ALVES, Rubem. “Cenas da vida”, São Paulo: Papirus, 1997. P. 89 à 90)

Livro Cenas de Vida (3a Edição)

Livro Cenas de Vida (3a Edição)

– Isadora Vieira

Alegrias engarrafadas: os álcoois e a embriaguez na cidade de São Paulo no final do século XIX e começo do XX

Ao pesquisar sobre os bares em São Paulo e procurar estudos relacionados a esse tema, encontramos uma tese de Doutorado, feita por Daisy de Camargo, que analisa as relações sociais ligadas ao consumo de bebidas alcoólicas em nossa cidade. Pretendemos fazer um documentário sobre os bares em São Paulo e demonstrar a importância social e cultural desses através de relatos pessoais. Dessa forma, a tese de Camargo nos interessou muito, já que queremos explorar o que está por trás do que, para várias pessoas, parece apenas uma bebida. Selecionamos alguns dos trechos do trabalho que nos chamaram a atenção, mas o estudo inteiro pode ser acessado através do link indicado no final do post.

Tese de Doutorado de Daisy de Camargo na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras (Campus de Assis)

Apresentação

“Esse trabalho trata do consumo de bebidas alcoólicas na cidade de São Paulo no final do século XIX e começo do XX e das relações sociais que permeiam esse hábito, desvelando gestos e sensibilidades do cotidiano da cidade, captando costumes, modos de vida e sujeitos extintos. Ou seja, o objetivo foi o de explorar uma cultura gestual, material e sensível, historicamente construída, ligada às bebidas espirituosas, seus objetos, seus lugares de uso, suas maneiras e ritos de saborear. O propósito foi fazer uma história de coisas banais, recompor em cacos os espaços dos botequins, seus mobiliários, as bebidas que eram vendidas, as gentes que os frequentavam, os caminhos e disputas dos alcoóis e outras drogas no controle dos corpos.”bar3

“A pertinência de trazer os bêbados como personagens da cidade é que estes sujeitos apontaram para um caminho de fuga: tavernas e homens que despejam alegrias engarrafadas. Interpelar esses documentos sobre a embriaguez foi um caminho de leitura para revolver a São Paulo do final do século XIX e começo do XX e tentar dialogar com a cidade das tascas, dos botequins, do vinho e da cachaça.”

 Um passeio pelas tabernas e armazéns

“O balcão justifica, em parte, a falta de móveis para sentar. O tom é “encostar a barriga nele”, como até hoje se fala em Portugal. Essa peça desempenha o papel de centro de comunicação e intercâmbio, de encosto, ponto de apoio para quem bebe (e não se aguenta nas pernas), quem serve, para as garrafas e copos, para o preparo das bebidas. Ele, portanto, soma e divide, separa, mas ao mesmo tempo integra as relações e proximidades entre comerciante e borracho. “bar3

“Em seu estudo denominado As Tascas do Porto, Raul Pinto descreve esse universo de ambientes e objetos: amontoados de garrafões, cheios e vazios, muito utilizados no comércio popular a retalhos, como alternativa das pipas com torneiras rangentes, sem muito silêncio ou espaço, barricas, estantes de madeira envidraçadas, o velho balcão, mesas grandes e coletivas (que surgem no inventário tratado no capítulo anterior, de Bernardo Martins Meira), bancos grandes (talvez o correspondente de José Barbosa Braga sejam as marquesas), e, claro, sempre: sardinhas (que como me confessou um filho de uma nobre linhagem de botequineiros, aconselha-se servir bem salgada, para dilatar a sede de líquidos).”

Vida de taberneiro não era nada fácil

“A São Paulo do final do século XIX era ainda uma cidade misturada, que obrigava uma convivência entre negros e brancos, ricos e pobres, damas e mulheres desconsideradas. É claro que essa coexistência incomodava e era repleta de conflitos e repúdios. A reforma efetuada pela prefeitura na Praça da Sé, durante as administrações de Antônio Prado e Raimundo Duprat, tinha como objetivo varrer a geografia do prazer e da embriaguez. ”

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“Nas tabernas, tascas e botequins os princípios e regras de convivência são distintos dos ditados pela burguesia, pelo discurso da Medicina e do Direito. Cria-se aí toda uma gama de disputas e intolerâncias em relação às tabernas e botequins e mesmo ao cheiro e ao gosto da aguardente, assim como a um conjunto de atitudes associadas aos meios populares, como o “beber até cair”. Uma parte da cidade se agastava com os botecos que ficavam abertos à noite, no contrafluxo das cafeterias vespertinas. Nesses ambientes todos tinham direito de sentar à mesa de estranhos e intervir nas conversações. Era uma atmosfera de extroversão e disponibilidade. Um simples gesto como o brinde trazia à tona toda uma carga de inclusão e demonstração de laços entre bebedores.”

“Não é por acaso que no decorrer da segunda metade do século XIX houve uma perseguição e investida de extinção das tabernas na cidade, onde a disciplina imposta pelo institucional passa por um projeto de policiamento dos costumes. A partir dos anos de 1850 a vida ficou cada vez mais difícil para os taberneiros, como José Barbosa Braga, estabelecidos na cidade de São Paulo. Eram frequentemente acusados de desonestos e de envenenarem a cachaça com água. A implicância aumentou quando as novas modas de comércio que surgiram na cidade, consideradas signos de progresso, tais como os cafés, confeitarias e restaurantes, eram colocadas em oposição às tabernas pela grande imprensa.”bar2

“De todo modo, vale destacar que essa atitude de estereotipar os hábitos dos borrachos das camadas populares não é de espreita, isolada. O debate em torno do uso de bebidas alcoólicas que ocorreu no decorrer do século XIX clareia o contato entre o refluxo do mal e da impureza e o projeto civilizador. Mergulhamos num mundo de adoração da racionalidade. O despertar dos sentidos passa a ser atrelado a uma suposta insuficiência de civilização e de falta de domínio das cidades e dos corpos. A estabilidade é apostada na vitória da higiene e da suavidade, da cultura da temperança, dos bons costumes. Houve um refinamento no que diz respeito aos graus de agrado ou impertinência: maus cheiros, miasmas, tudo que soasse fétido, podre e sujo. A conduta do código dos usos seria a da limpeza. É o universo técnico e prepotente apresentando suas soluções ilusórias e efetivas.”

O texto acima são apenas cortes do texto original de Daisy de Camargo. Sua tese na íntegra está no link abaixo:

http://www.athena.biblioteca.unesp.br/exlibris/bd/bas/33004048018P5/2010/camargo_d_dr_assis.pdf

– Carol, Lí, Isa, Vick